Stella do Patrocínio

22 out 2022 - 22 abr 2023
Ongoing...
10:00 - 17:00
Museu Bispo do Rosário

Nascida no ano de 1941, no Rio de Janeiro, Stella do Patrocínio caminhava por uma rua no bairro Botafogo quando foi, assim como Arthur Bispo do Rosario, detida pela polícia e internada compulsoriamente no Centro Psiquiátrico Pedro II (CPPII), aos 21 anos. Em 1966, foi transferida para Colônia Juliano Moreira (CJM) onde permaneceu até sua morte, aos 51 anos.  Em 1986, como parte do movimento de humanização das práticas em contextos psiquiátricos, foi realizado na CJM, o projeto Oficina de Livre Criação Artística, em parceria com a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, idealizado pelas psicólogas Denise Correa e Marlene Sá Freire, com a orientação da artista Nelly Gutmacher e participação de estudantes da EAV. O projeto promoveu oficinas de arte para internas do extinto Núcleo Teixeira Brandão. Foi nesse contexto que Stella do Patrocínio e Carla Guagliardi realizaram as conversas gravadas em fita cassete – o impactante falatório, como Stella denominou. Anos depois, novamente, a fala de Stella foi gravada e transcrita pela estagiária de psicologia Mônica Ribeiro. Desde então, o Falatório de Stella do Patrocínio tornou-se publicamente conhecido, inspirando diversas publicações, produções artísticas e pesquisas acadêmicas. 

A presença de Stella em seu falatório, reinventa a língua em seu fluxo constante. Esses áudios reproduzidos na íntegra nesta exposição, revelam apenas uma pequena mostra de sua passagem pelo mundo em seu gesto de fazer ecoar sua voz: denúncia frente a uma sociedade normatizadora, patriarcal e racista que se valeu do modelo médico para excluir e calar as pessoas que de alguma maneira se diferenciavam do modelo hegemônico. 

Quantas outras vozes semelhantes e diferentes de Stella foram confinadas, silenciadas, condenadas à invisibilidade. Mulheres como Marlene, que também como Stella habitou o Núcleo Teixeira Brandão e usou da escrita incessante nas paredes do asilo para encontrar um modo de existência. 

Com a curadoria coletiva de Patrícia Ruth, Rogeria Barbosa, Diana Kolker, Raquel Fernandes e Ricardo Resende, a mostra coloca em foco a palavra – falada, escrita, desenhada, costurada, bordada, dançada, performada, cantada – mobilizada pela escuta do Falatório de Stella do Patrocínio, afirmando sua relevância na produção intelectual e artística brasileira e afrodiaspórica contemporâneas. Em interlocução com o Falatório de Stella, apresentamos a produção das artistas Annaline Curado, Morena, Natasha Felix, Panmela Castro, Patricia Ruth, Priscila Rezende, Rogéria Barbosa, Rosana Palazyan, Val Souza, Vanessa Alves e Zahy.

Realizada no mesmo ano em que o Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira, fecha os últimos núcleos de internação ativos, através da implementação de políticas de cuidado e reinserção psicossocial, a exposição nos convida a ouvir, a abrir espaço para a escuta de Stella do Patrocínio. Que sua voz possa vibrar, reverberando como uma onda potente capaz de fazer ruir em nós nossos manicômios mentais e nos convoque a somar forças às ações de justiça e reparação às vítimas da violência e omissão do estado, que atinge principalmente mulheres historicamente afetadas pelo racismo, sexismo e classismo. A exposição Stella do Patrocínio: Me mostrar que eu não sou sozinha é lugar de encontro e fala de mulheres, iguais, semelhantes e diferentes. É lugar também de escuta.

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