Museu

O Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea está situado dentro do Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira, complexo de saúde mental conhecido como “Colônia”, localizado na Taquara, Zona Oeste do Rio de Janeiro. É responsável pela preservação, conservação e difusão da obra de Arthur Bispo do Rosário – um dos expoentes da arte contemporânea, de reconhecimento nacional e internacional.

O Museu desenvolve suas ações através de 3 eixos fundamentais: Acervo, Exposições; Escola Livre de Artes. 

Nas suas quatro galerias, no prédio sede da Colônia, e no Polo Experimental – espaço dedicado às atividades de educação, o mBrac apresenta gratuitamente mostras e exposições, e oferece uma série de programas educativos voltados para todas as idades.

No roteiro de visitas do mBrac, no Circuito Cultural Colônia, está incluído o Centro Histórico Rodrigues Caldas, remanescente das terras de engenho do século XVII, e as dependências do Pavilhão 10 do Núcleo Ulisses Vianna*, onde Bispo do Rosário viveu, ocupando um conjunto de celas que serviu como seu atelier.

Resposável por preservar e difundir a memória da Colônia Juliano Moreira, o Museu conta com um importante acervo documental,  disponível para o acesso à pesquisadores

O Museu conta também com a Loja B e o Bistrô do Bispo, que fazem parte do programa de geração de renda para reinserção social dos usuários dos serviços de saúde mental. A Loja B oferece um ótimo espaço para um café ou lanche, e também para  adquirir  uma recordação da visita ao  Museu. Para almoçar contamos as delicias da comida caseira do Bistrô do Bispo.

Bispo

Nascido em Japaratuba, Sergipe, em 1909, Arthur, filho de carpinteiro, tem sobrenome de batismo “Bispo” – cargo eclesiástico – e “Rosário” – padroeira dos negros. Um paradoxo que amalgama a hierarquia e a complacência da Igreja Católica presente na sua vida e obra.

 

Pouco se sabe sobre sua infância, mas há registro de seu ingresso, em 1925, na Escola de Aprendizes Marinheiros, em Aracaju, o que o leva, no ano seguinte, à cidade do Rio de Janeiro, onde se alista na Marinha de Guerra e permanece por nove anos.

Na Marinha, Bispo conhece o boxe e logo se torna campeão dos pesos-leves. Seu envolvimento com o esporte causa muitos atritos e acaba por levá-lo a solicitar seu desligamento. Passa a trabalhar na empresa Light and Power como vulcanizador no setor de transportes e, paralelamente, investe na sua carreira como pugilista. Sofre um acidente em 1936, quando seu pé é esmagado pela roda de um bonde, o que o deixa manco e o faz abandonar o boxe. Apesar de poucas vitórias na sua carreira de pugilista, Bispo foi muito admirado pelos amantes do esporte por sua resistência no enfrentamento dos adversários.

Por conta do processo que moveu contra a Light, Bispo conhece Humberto Leone, advogado na sua causa trabalhista. Passa, então, a residir na casa do advogado, em Botafogo, e torna-se um “faz-tudo” da família.

É no casarão dos Leone, na rua São Clemente, que Bispo tem a revelação que modifica sua vida. Na noite do dia 22 de dezembro de 1938 , ele se vê descendo do céu, acompanhado por sete anjos que o deixam na “casa nos fundos murados de Botafogo”, segundo o bordado que relata o acontecimento em um dos seus estandartes. Bispo sai, madrugada adentro, pela rua deserta até chegar ao Mosteiro de São Bento, no Centro do Rio. Lá, se apresenta aos frades como “aquele que veio julgar os vivos e os mortos”. Encaminham-no, então, para o hospício da Praia Vermelha, de onde é transferido para a Colônia Juliano Moreira.

Esse processo de aceitação do delírio que lhe sucedia foi conflituoso para Bispo: fugiu algumas vezes das internações e, em outras vezes, ao receber alta, tenta se readaptar no mundo. Apaziguado consigo mesmo, em 1964, permanece definitivamente na Colônia. É neste ano que Bispo vai preso por três meses, em uma das celas do Pavilhão 10 do Núcleo Ulisses Vianna, por ter errado a dose no uso da força ao conter um paciente – um pedido constante dos funcionários. Ao sair do confinamento, relata que “ouviu vozes que lhe diziam que chegara a hora de representar todas as coisas existentes na Terra para a apresentação no dia do juízo final”.

Decide, por sua conta, trancar-se por sete anos numa das celas para, com agulha e linha, bordar a escrita de seus estandartes e fragmentos de tecido. As linhas azuis, desfiava dos velhos uniformes dos internos, e objetos tais como canecas, pedaços de madeiras, arame, vassoura, papelão, fios de varal, garrafas e materiais diversos, obtinha em refugos na Colônia.

Após 18 anos da revelação de sua missão, Bispo desperta o interesse da mídia e de críticos de arte, o que leva, em 1982, a expor pela primeira vez seus quinze estandartes na mostra “Margem da Vida”, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. Após o sucesso da sua participação, recebe vários convites para novas mostras. No entanto, a coletiva foi a única exposição que ele integrou em vida. Bispo não aceitava se separar de sua obra e não se considerava artista. Para ele, tudo era fruto de uma missão que um dia seria revelada no dia do juízo final.

Arthur Bispo do Rosário, que carregava todos os estigmas de marginalização social ainda vigentes em nossa sociedade – negro, pobre, louco, asilado em um manicômio – consegue, na sua genialidade, subverter a lógica excludente propondo, a partir da sua obra, a ressignificação do universo, para ser reunido e apresentado no dia do juízo final. Sua missão chegou ao fim aos 80 anos, no dia 5 julho de 1989, dia da sua morte.

“É aqui no hospício que eu vou me apresentar, que eu devo ser apresentado a humanidade.  Por seus diretores até aqui, frades cardeais, ninguém conseguiu ver Cristo, mas agora vão encontrá-lo porque eu vou me apresentar. Vou me transformar a fim de me apresentar a Ele que é meu vigário, mais nada” – Arthur Bispo do Rosário in  “O prisioneiro da passagem” de Hugo Denizart.

Colônia

Com cerca de 77 km quadrados, as terras que inicialmente foram território sagrado dos índios Tupinambás e já abrigaram o antigo Engenho de Nossa Senhora dos Remédios foram desapropriadas no início do séc. XX para o desenvolvimento de um projeto de tratamento psiquiátrico considerado na época inovador. A recuperação dos alienados se daria pelo trabalho em colônias agrícolas. Em pouco tempo, o projeto terapêutico tornou-se obsoleto, perdendo a sua característica de reabilitação pelo trabalho para se transformar em um depósito de gente, loucos considerados irrecuperáveis. Chegou a abrigar cerca de cinco mil pacientes. Uma verdadeira “cidade de loucos”.

No início dos anos 80, a instituição iniciou uma transformação do seu modelo assistencial em consonância com a Reforma Psiquiátrica que vinha acontecendo em diversos países. Foram abolidos o eletrochoque e as lobotomias, além de terem sido proibidas novas internações de longa permanência. Desenvolveu-se um programa de desinstitucionalização para promover a transferência progressiva de pacientes para fora das instalações hospitalares.

Como reflexo das mudanças ocorridas no conceito de tratamento das doenças mentais e da desocupação gradativa do manicômio, uma nova virada se dá no destino das terras da Colônia, anteriormente preenchidas por casas dos funcionários e então ocupadas desordenadamente por 20 mil moradores de 6 favelas que se formaram no local. A região passa agora por um processo de revitalização urbanística, com a criação de casas populares, creches, certificação de título de propriedade das terras para os moradores, e assim a antiga Colônia se abre e se transforma no mais novo bairro da cidade, mantendo ainda a preocupação de preservar seu passado histórico e arquitetônico e sua área de preservação ambiental.