Museu Bispo do Rosario celebra o Dia da Mulher Negra com Linn da Quebrada no I Festival Stella do Patrocínio

O Museu Bispo do Rosario recebe, no próximo dia 25 de julho (Sáb), a primeira edição do Festival Stella do Patrocínio e é justamente nesta data, marco de resistência e celebração da identidade negra na América Latina e no Caribe, que a instituição celebra a memória de uma das artistas mais potentes e invisibilizadas do Brasil.

O Festival é uma homenagem à Stella do Patrocínio, mulher negra internada compulsoriamente ainda jovem em instituições psiquiátricas do Rio de Janeiro, cuja voz (tendo sido registrada em fitas cassete e hoje conhecida como o “Falatório”) se tornou um dos testemunhos mais potentes contra o racismo, o patriarcado e a antiga lógica manicomial no Brasil. O encontro acontece no próprio território da Colônia que também salvaguarda a memória e as obras de Arthur Bispo do Rosário, com quem Stella compartilhou a experiência da internação psiquiátrica compulsória, e propõe um dia inteiro de arte, escuta e celebração protagonizado por mulheres negras.

Para a curadora geral do Museu Bispo do Rosario, Carolina Rodrigues, a ocasião é mais uma oportunidade de romper com as narrativas estigmatizantes sobre as pessoas que passaram pela Colônia Juliano Moreira para atuar como um espaço de encontro e autonomia, uma forma de reavivar essas memórias em um diálogo contemporâneo com o público.

”Há alguns anos, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha faz parte do calendário de ações culturais e educativas do museu. Esse ano, instituímos o Festival Stella do Patrocínio nesta data com o objetivo de celebrar o legado de uma das mais importantes personalidades da história dessa instituição e desse território. Por meio de suas palavras e de sua história de vida, Stella do Patrocínio inspirou a produção artística de muitas mulheres negras na contemporaneidade, em diversas linguagens”. Carolina destaca também que reverberar os falatórios de Stella é um ato de justiça histórica. ”É afirmar que a produção intelectual e artística de mulheres negras não é sobre resistência ou sobrevivência, mas um pilar fundamental da nossa cultura”, conclui a curadora.

Multilinguagens

A abertura acontece às 13h30 com a exposição “Na Boca da Noite”, da artista visual Medusa Yoni, que ocupará o espaço ao longo de toda a programação. A exposição traz alguns trabalhos desenvolvidos ao longo dos três últimos anos, frutos de uma pesquisa que começa a partir de sua experiência enquanto vendedora ambulante nos ônibus. ”Apresentar minha primeira exposição individual no Museu Bispo do Rosário, sob o legado de Stella do Patrocínio, que é uma grande referência, é uma grande honra. Mais do que uma mulher, Stella foi uma existência desejante e insubmissa, caótica e  brilhante. Diferente dos artistas negros das gerações passadas, nossas produções estão sendo reconhecidas e valorizadas em vida (finalmente), estamos vivos, produzindo cultura, aqui e agora”, enfatiza a artista. 

Em seguida, o público acompanha o ”Ato Cênico Manifesto”, com Tuane Martins, e a exibição do curta-documentário “Stella do Patrocínio e a Gênese da Poesia” seguida de conversa com a diretora Milena Manfredini.

À tarde, tem ainda a inauguração de uma instalação assinada por Natasha Félix, uma apresentação de Sara Ramos e uma Conversa Musical com Linn da Quebrada — um dos nomes mais relevantes da cena musical brasileira contemporânea  — pela primeira vez no Museu. A artista, que é declaradamente apaixonada pelas artes visuais, confessa que está muito feliz em poder se aproximar ainda mais da obra de Bispo e da poeta que leva o nome do Festival. ”Stella me acompanha já faz algum tempo. Eu gravei uma música elaborada a partir de seus falatórios, que está no meu último disco. Vai ser importante poder dialogar sobre as muitas contradições que Stella nos convoca a pensar. Sinto que eu mesma tenho alguns pontos de contato que se tangenciam com a poesia que Stella produziu, apesar e além do diagnóstico. Vai ser um encontro bem íntimo em que vou cantar “Medrosa – Ode à Stella do Patrocínio”, que não pode faltar, além de algumas outras canções. Espero que a gente também possa conversar sobre arte, poesia, cura, liberdade e descanso”, revela a cantora, atriz e apresentadora. 

Dois sets da DJ Bombs embalam os intervalos entre as atrações e o encerramento fica por conta da Roda de Samba da Carol Cardoso, celebrando a ancestralidade e a alegria como formas de resistência. 

Programação:

  • 13h30 – Abertura da Exposição “Na Boca da Noite” de Medusa Yoni;
  • 14h20 – Ato Cênico Manifesto “A Trajetória de Stella: Um espelho entre nós” com Tuane Martins;
  • 14h30 – Atividade “Vozes escritas, palavras ouvidas” com Taísa Vitória;
  • 15h10 – Exibição de curta “Stella do Patrocínio e a Gênese da Poesia” e conversa com a diretora Milena Manfredini;
  • 16h – Ativação da obra “Malezinho Prazeres” de Natasha Felix e Glau Tavares;
  • 16h10DJ Bombs;
  • 16h40 – Apresentação “Eu vim aqui atrás dos meus dentes” com Sara Ramos;
  • 17h – Conversa Musical com Linn da Quebrada;
  • 18hDJ Bombs;
  • 18h40 – Roda de Samba com Carol Cardoso.

Feira de Economia Criativa durante todo o evento.

Inscreva-se no transporte gratuito, com embarque na Estação do Metrô da Glória e na UERJ: https://forms.gle/PV2mK1zBJZNp3BSm9

Teremos vans gratuitas saindo de Casa de Cultura de Jacarepaguá às 13h30, 14h e 14h30.

Quem foi Stella do Patrocínio

Nascida em 1941, no Rio de Janeiro, Stella do Patrocínio caminhava por uma rua do bairro de Botafogo quando foi detida pela polícia e internada de forma compulsória no Centro Psiquiátrico Pedro II (CPPII), aos 21 anos. Assim como aconteceu, anteriormente, com Arthur Bispo do Rosario. A transferência para a Colônia Juliano Moreira aconteceu em 1966 e lá permaneceu até sua morte, aos 51 anos.

Faça um tour virtual pela exposição Stella do Patrocínio, que ficou em cartaz no Museu Bispo do Rosario em 2022.

Em 1986, como parte de um movimento de humanização das práticas psiquiátricas, a Colônia Juliano Moreira sediou o projeto ‘Oficina de Livre Criação Artística’, em parceria com a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Idealizado pelas psicólogas Denise Correa e Marlene Sá Freire, com orientação da artista Nelly Gutmacher e participação de estudantes da EAV, o projeto promoveu oficinas de arte para internas do extinto Núcleo Teixeira Brandão. Foi nesse contexto que Stella do Patrocínio e a artista Carla Guagliardi realizaram conversas gravadas em fita cassete, o impactante ”Falatório”, como a própria Stella o nomeou. Anos mais tarde, sua fala foi novamente gravada e transcrita, dessa vez pela estagiária de psicologia Mônica Ribeiro. Desde então, o ”Falatório” de Stella do Patrocínio se tornou publicamente conhecido, inspirando publicações, produções artísticas e pesquisas acadêmicas.

A presença de Stella em seu ”Falatório” reinventa a língua em fluxo constante. Os áudios, reproduzidos na íntegra na exposição, revelam apenas uma pequena amostra de sua passagem pelo mundo e do gesto de fazer ecoar sua voz: a denúncia diante de uma sociedade normativa e racista que se valeu do modelo médico para excluir e calar quem se diferenciava do padrão hegemônico e higienista.

Ouça um podcast sobre Stella do Patrocínio

A importância da data

O 25 de julho é o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, instituído em 1992 durante o I Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, realizado na República Dominicana. No Brasil a data também é conhecida como Dia de Tereza de Benguela e da Mulher Negra e marca reflexões sobre racismo, machismo e as múltiplas formas de resistência das mulheres negras.

O Festival Stella do Patrocínio 2026 é uma realização do Museu Bispo do Rosário, apresentado pelo Ministério da Cultura, pela Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e pela Secretaria Municipal de Cultura – com o patrocínio do Itaú e da Rede D’OR.

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