Regresso ao Sertão propõe um olhar sobre os artistas da Zona Oeste

11 out 2025 - 31 jul 2026
Ongoing...
09:00 - 17:00

Dedicada à desconstrução do imaginário do lugar comum que nos remete à comparação da região da Caatinga e do Semiárido, no nordeste do país, à realidade da Zona Oeste, ”Regresso ao Sertão” é pensada por uma equipe de curadoria atuante na Zona Oeste com diferentes perspectivas de um grupo de artistas ligados ao território. Ao todo, são mais de 200 peças: 60 delas de Bispo do Rosario e o restante de artistas da região.  A exposição fica em cartaz até julho de 2026 e tem entrada gratuita.

A exposição tem a pesquisa fundamentada e inspirada na obra ”O Sertão Carioca”, livro publicado em 1936 por Armando Magalhães Corrêa, onde retrata o cenário de um Rio de Janeiro rural registrado por heranças culturais, religiosas e paisagens campesinas do início daquele século. Corrêa detém-se sobre práticas agrícolas de uma Zona Oeste voltada para o cultivo da banana, a produção de carvão e outras atividades extrativistas da época. Englobando mais especificamente a Baixada de Jacarepaguá e as elevações do Maciço da Pedra Branca, a ideia de ”Sertão Carioca” diz respeito ao caráter rural da região e, nas palavras da antropóloga Luz Stella Rodríguez Cáceres, “como lugar mítico, preservado em seu passado e, como tal, mais próximo de um estado natural ou original, como consequência do seu ‘isolamento’ e distância da Zona Sul e Centro da cidade do Rio de Janeiro.” 

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Entre as décadas de 1920 e 1930, o escultor e jornalista Armando Magalhães Corrêa decide adentrar a zona rural do Rio de Janeiro e chega até as regiões de Jacarepaguá e Barra da Tijuca. Visitando, posteriormente, outras regiões como Guaratiba, escreveu uma série de crônicas. Seu texto era uma descrição minuciosa e científica, mas não menos pessoal, dos aspectos históricos e geográficos da região. Identificando a distância do centro da cidade e das principais reformas urbanísticas da Modernidade como principal fator de isolamento, o autor passa, então, a entender e disseminar que nesse Oeste fazia-se sertão: o ”Sertão Carioca”.

Além de mostrar a intensa produção de arte contemporânea na região que atualmente é conhecida e valorizada internacionalmente, há uma intencionalidade provocativa no uso da palavra “sertão” no título de uma exposição sobre a Zona Oeste carioca. Ela é feita para evidenciar as tensões políticas que este substantivo carrega consigo no decorrer dos anos no Brasil. A partir da literatura e, posteriormente, do audiovisual, o imaginário sertanejo chega ao Sudeste brasileiro coberto pela poeira do regionalismo totalizante e limitado. Leituras justas sobre o território foram suprimidas por representações equivocadas que não correspondem a suas identidades, economias e modos de habitar.

Para além das obras de Arthur Bispo do Rosario e Arlindo Oliveira, falecido recentemente no ano de 2024, os artistas que participam são: Ana Beatriz, Ana Bia Silva, Barbara Copque, Bea Machado, Cami Soares, Cesar, Cety Soledad, Claudia Maria, Claudia Revoredo, Clóvis Aparecido, Edith, Edson Muniz, Fátima, Frederico, Gabriel D’ketu, Gilmar Ferreira, Guilherme Kid, Ivanido Ferreira, Jane Almendra, Joyce Olipo, Leonardo Lobão, Lucas Uruhahy, Luis Carlos Marques, Mariana Dias, Marinete, Mery Horta, Neide, Nilda, Nobru Werneck, Patricia Ruth, Pedrinho, Rafael Amorim, Ranieri, Ricardo, Rogéria Barbosa, Selma, Sérgio Duarte, Taina Cabral, Taísa Vitória, Tania, Thiago Modesto, Valéria, Vanderlei, Vera, Vicente, Walter José, Willian Maia e Yoko Nishio.

Para a curadora geral do Museu Bispo do Rosario, Carolina Rodrigues, além de partir de um legado literário tão importante para a história da Zona Oeste, a exposição se destaca por ser uma grande mostra composta apenas por artistas com trajetórias totalmente vinculadas à região. ”É uma ação muito importante para evidenciar o potencial das artes visuais nesse território, cujas oportunidades são tão escassas para essa linguagem artística. Enquanto um museu público e gratuito, temos uma grande responsabilidade no fomento dessas produções e na preservação dessas memórias. É importante dizer, também, que a equipe curatorial do Museu Bispo do Rosario é composta por curadores de Bangu, Padre Miguel e Santa Cruz, o que nos traz um lugar de identificação e engajamento político muito aprofundado para tratar dessas questões”, ressalta Carolina, que também é diretora artística da instituição.

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Adotando o livro de Magalhães Corrêa como provocação inicial, Regresso ao Sertão pode ser compreendida como um primeiro estudo para expandir tudo o que não coube nas palavras e desenhos do autor, questionando-o enquanto documento fundante de nossa história e identidade. Tomando para si a narrativa desse território pelo lado de dentro e não mais pela perspectiva estrangeira, etnográfica e ocasionalmente limitante presente no livro, o papel da curadoria foi caminhar junto de cada artista na reescrita desse território, versando, entre outras coisas, sobre deslocamento, pertencimento, habitação, memória coletiva e criação artística como prática de autonomia e liberdade, aproximando os quintais e incorporando as memórias pessoais.

Esse regresso propõe alguns encontros importantes de serem mencionados: trata-se, em sua maioria, de um grupo de artistas nascidos na Zona Oeste, ou que aqui viveram parte de suas vidas. No trânsito entre gerações e linguagens artísticas, propomos também outro retorno: o de Arthur Bispo do Rosario, que veio do Sertão de Japaratuba, Sergipe, para a Zona Oeste carioca. Bispo nunca pôde retornar, em vida, ao seu lugar de origem, figurando como uma das personalidades que transformaram o imaginário e a memória deste Sertão.

| Agende sua visita mediada ao Museu Bispo do Rosario |

De acordo com o curador adjunto e responsável pela pesquisa, Rafael Amorim, ”Regresso ao Sertão” surge de uma percepção mais atenta com o território e as complexidades que é pensar no deslocamento cotidiano de quem vive nele, nas diásporas que se constitui e nos muitos modos de ocupação dessa geografia. ”Passamos a entender que nosso distanciamento não é só físico, mas simbólico e histórico: lá na década de 1930, o pesquisador Armando Magalhães Corrêa chega na Zona Oeste (que na época mantinha uma expressiva área rural) e, dado as diferenças culturais com as reformas urbanas que aconteciam na região central, passa a chamar o nosso território de O Sertão Carioca. Ainda que geográfica e geologicamente a Zona Oeste não seja caracterizada por uma paisagem sertaneja, esse título foi apropriado por quem vivia e ainda vive por aqui, pensando justamente na nossa capacidade de autogestão e autonomia como resposta aos projetos que definiram o que era periferia e o que era centro na nossa composição de cidade”, conclui Rafael.

A exposição tem entrada gratuita e vai até julho 2026. O Museu Bispo do Rosario é aberto ao público e os dias e horários para visitação são: de terça a sábado – das 9h às 17h – com entrada gratuita. A exposição Regresso ao Sertão é uma realização do Museu Bispo do Rosário, apresentado pelo Ministério da Cultura, pela Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e pela Secretaria Municipal de Cultura – com o patrocínio do Itaú e da Rede D’OR

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