Cela

O Núcleo Ulisses Vianna, originalmente cercado por um extenso e alto muro, era formado por 11 pavilhões destinados a receber os pacientes homens, violentos e agitados da Colônia. Esses pavilhões eram compostos por enfermarias, cada uma com cerca de 40 camas justapostas uma ao lado da outra, onde os pacientes ficavam confinados sem nenhuma privacidade. Em cada um dos 11 pavilhões, havia uma ala sem camas chamada de “bolo”.

Nessas alas, os pacientes ficavam amontoados no chão e, ao seu redor, 10 celas-fortes – pequenos cubículos com portas de ferro – mantinham os mais agitados contidos ou isolados por punição. Pareciam verdadeiras solitárias no estilo prisional: recebiam alimentação pela fresta da porta e utilizavam um buraco no chão como sanitário.

Bispo era um dos “agitados”. Diagnosticado como esquizofrênico-paranóico, foi alojado no pavilhão 10 do núcleo. Forte e sisudo, o ex-boxeador tornou-se um “xerife”, posição que lhe assegurou privilégios e permitiu a recusa de eletrochoques e medicações. Nunca se interessou em participar dos ateliês de arteterapia, mas estava sempre produzindo objetos num processo criativo incessante e solitário. Toma posse das demais celas que compunham esse “panóptico” para vigiar e punir, como descreveu Focault, e as transforma em seu espaço expositivo. Para ter acesso ao local, era necessário desvendar o enigma apresentado por Bispo que consistia em responder qual era a cor de sua áurea. Participar desse jogo proposto por pelo artista permitia experienciar a subversão que esse homem fez no hospício, de dentro de sua cela-atelier-galeria.

O pavilhão 10 foi o  único que restou do conjunto arquitetônico do Núcleo Ulisses Vianna   que mantém a ambiência original .   Na cela  onde Bispo viveu  foram encontrados vestígios de desenhos  do artista que o Museu está somando esforços para recuperar.

O mBrac em parceria com a Fundação Marcos Amaro irá iniciar a partir de 2020 as obras de  recuperação do telhado e demais estruturas do  Pavilhão 10 do Núcleo Ulisses Vianna para se tornar um espaço expositivo e  de memória do passado asilar da Colônia Juliano Moreira e do contexto de criação das obras de Bispo do Rosário.

O pavilhão 10 pode ser visitado mediante agendamento  e compõe o Circuito Cultural Colônia.