Atividades Caseiras

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Semanalmente, compartilhamos nas redes sociais do museu as Atividades Caseiras criadas pela nossa curadora pedagógica e equipe de educação. As atividades são inspiradas principalmente na obra de Arthur Bispo do Rosario e pensadas como dispositivos clínico-poético-pedagógicos, com o objetivo de possibilitar momentos de criação, educação, introspecção, afeto e cuidado diante dessa experiência tão complexa imposta pelo isolamento social. 

As atividades são adaptáveis às diferentes faixas-etárias e aos materiais disponíveis em sua casa. 

Aqui você pode ter acesso ao conjunto das  propostas, que serão atualizadas periodicamente. 

Foto de Walter Firmo

 

A obra de Arthur Bispo do Rosario é um inventário do mundo, representado através de objetos, bordados e palavras. Bispo acreditava que sua missão era apresentar a Terra à Deus e recriar um novo mundo sem miséria, doenças e sofrimento.  

Uma de suas criações mais importantes é o Manto da Apresentação. Vestimenta que fabricou ao longo de décadas, enquanto esteve internado na Colônia Juliano Moreira. Um antigo cobertor, transformado em majestoso traje, bordado interna e externamente com palavras e símbolos que revelam a síntese de sua obra. 

“Quando eu subir, os céus se abrirão e vai recomeçar a contagem do mundo. Vou nessa nave, com esse manto e essas miniaturas que representam a existência. Vou me apresentar.”

Arthur Bispo do Rosario

 

 

 

A imaginação é o que nos move, nos impulsiona. É o princípio e fundamento de toda atividade de criação. A imaginação provoca a abertura para um novo campo de possibilidades que podem ou não ser efetuadas. A potência da arte como materialização da imaginação é afirmação da vida em sua capacidade de desviar, abrir frestas, recriar o mundo, mostrar os avessos, resistir e inventar. 

As crianças conhecem bem essas forças. Através do livre brincar, experimentam o mundo, elaboram as experiências vividas, formulam hipóteses, se expressam, investigam, testam possibilidades, criam enredos, transformam a realidade. 

Esta proposta é um convite à brincadeira, formulado pelo marujo Vicente e sua mãe Diana Kolker, curadora pedagógica do Museu Bispo do Rosario Arte Contemporânea. Com inspiração no Grande Veleiro de Arthur Bispo do Rosario, vamos nos deixar conduzir pela navegação das crianças! Elas serão as capitães desta embarcação. 

Levantar âncoras! Içar velas! Boa Aventura!

As dicas de navegação foram formuladas por um marujo de 5 anos, chamado Vicente:

  • Você pode usar sua cama ou colchão para transformar em barco;
  • As  velas podem ser de lençóis. Minha mãe prendeu com pregador de roupa. 
  • Eu gostei de levar meus bonecos, bichos de pelúcia e alguns jogos, como jogo da velha e rouba monte.
  • Eu também queria levar comida e água pra beber. 
  • Fiz uma bússola, levamos um mapa e o globo terrestre.
  • A nossa missão era encontrar uma sereia e tirar uma foto dela. Ela virou nossa amiga, Helena Sofia.
  • Cuidado com os perigos. Enfrentamos tubarões, baleias e ondas gigantes.
  • Você pode fazer binóculos com dois rolos de papel higiênico vazios, colados com fita. Eu desenhei no meu. 
  • No Grande Veleiro não podia usar celular.
  • Minha mãe levou o diário de bordo. Eu desenhei e ela escreveu. 
  • Ficamos à deriva depois da tempestade, mas achamos um tesouro. 
  • Eu gostei de dormir no Grande Veleiro. 

A palavra Abayomi é um nome próprio de origem iorubá que significa ”encontro precioso” e não possui gênero, servindo tanto para meninas quanto para meninos.

O nome é comum na África e também designa bonecas de pano artesanais, feitas através de tiras de tecido reaproveitadas, com nós e tranças, sem qualquer tipo de costura.

Que tal fazer uma Abayomi do Bispo do Rosário em seu Manto da Apresentação?

 

 

Lembranças de Bispo

A obra de Arthur Bispo do Rosario foi produzida para apresentar o mundo a Deus através de uma ritualização e reordenação desse universo conhecido. O inventário é composto de objetos, bordados e palavras. Com isso, Bispo projetou um mundo perfeito, onde mazelas, doenças e tristezas não existiriam. Ele projetou um anti-manicômio. 

Dentro desse inventário há um conjunto de estandartes com mapas bordados sobre lugares que o artista conheceu e imaginou. A memória do próprios passos e a imaginação dos próximos que seriam dados foram elementos de inspiração à construção dessas obras, feitas com os lençóis da Colônia Juliano Moreira. 

E as suas memórias? Você se lembra por onde passou na vida?

Seus Passos

A atividade desta semana é um convite a usar suas memórias para construir um mapa dos lugares afetivos que você passou ou quer passar após a quarentena. Pode ser o mapa da sua casa, do seu bairro, da sua cidade, do seu país. As dimensões e a escala podem ser completamente inventadas. Use a sua imaginação para criar um mapa que possa ver seu mundo sobre o papel, assim como Bispo criou em tecidos. Brinque com as cores, com as letra e formas. 

Esta atividade é livre para todos os públicos e também pode ser feita em conjunto. Chame sua família para criarem juntes um mapa de seus espaços preferidos no mundo. 

Ruas, estradas e avenidas

“Eu preciso dessas palavras escrita”. Arthur Bispo do Rosario bordou palavras, nomeou as coisas, gravou pessoas e lugares na memória do mundo através de sua obra. 

Em seus estandartes, Bispo nomeou os lugares onde passou e os lugares que imaginou. Criou uma avenida em homenagem à Rosângela Maria, estagiária de psicologia. Listou os países e suas embaixadas. Em suas Placas de Rua, parte do conjunto de Objetos Revestidos de Fio Azul (ORFA), –  cobertos com a linha extraída dos uniformes dos internos do manicômio –  apresentou algumas das ruas do Rio de Janeiro  por onde transitou. 

O processo de nomeação é importante para perceber o mundo e se perceber nele. Placas de rua servem para sinalizar e direcionar pessoas que estão em trânsito, em fluxo. Muitas são as possibilidades de nomear essas ruas, estradas e avenidas. Placas com nomes de lugares e homenagem a pessoas são as mais encontradas. Já pensou na possibilidade de vocês mesmo batizar as esquinas por onde passa?

Como se chama?

A atividade desta semana é um convite à produção de placas que irão batizar os espaços da sua casa. Podem ser feitas com pedaços de papel, papelão, tecido ou qualquer outro material da sua escolha. A vivência da quarentena transformou sua relação com a casa?  Alguns espaços ganharam novos usos? Existe aquele cantinho da casa onde você gosta de descansar? Onde as pessoas de sua residência costumam se reunir? Pense sobre sua relação com cada espaço de sua residência e use a imaginação  para inventar nomes e decorar essas placas. Será que serão nomes de pessoas queridas? Nomes de pessoas que você admira e se fazem presentes na memória? Nomes de comidas? Nomes de lugares? Nomes que ainda não existem? Esta atividade é livre para todas as idades e pode ser feita individualmente ou em conjunto.

Em sua obra, Arthur Bispo do Rosario bordou muitos nomes de pessoas. Tais nomes aparecem em seus fichários, estandartes, na caixa dos escolhidos e na parte interna do seu Manto da Apresentação. São pessoas com as quais ele teve contato pessoal ou que conheceu através das notícias de jornais, revistas e histórias. De alguma maneira, todas essas pessoas produziram uma marca na vida de Bispo e ficaram, por sua vez, gravadas em sua obra.  

E você? Quem são as pessoas que marcaram sua vida e que fazem parte da pessoa que você se tornou?

A atividade da semana é um convite à produzir o seu próprio dicionário de nomes. 

Pense naquelas pessoas que participaram da sua história de vida e que se tornaram parte de quem você é. Podem ser familiares, amigas, amigos, amores, desafetos, professores e professoras, artistas, escritoras e escritores, profissionais de saúde, colegas de trabalho, pessoas que exerceram atividades públicas, pessoas contemporâneas à você ou de outras épocas. 

Experimente formas de criar esse dicionário, conforme queira! Você pode bordar ou escrever esses nomes em um tecido, no papel, na parede, no espelho  ou  no seu próṕrio corpo.

Você verá que uma multidão vive em você. 

© Museu Bispo do Rosario Arte Comtemporânea