Colônia

Com cerca de 77 km quadrados, as terras que inicialmente foram território sagrado dos índios Tupinambás e já abrigaram o antigo Engenho de Nossa Senhora dos Remédios foram desapropriadas no início do séc. XX para o desenvolvimento de um projeto de tratamento psiquiátrico considerado na época inovador.

A recuperação dos alienados se daria pelo trabalho em colônias agrícolas. Em pouco tempo, o projeto terapêutico tornou-se obsoleto, perdendo a sua característica de reabilitação pelo trabalho para se transformar em um depósito de gente, loucos considerados irrecuperáveis. Chegou a abrigar cerca de cinco mil pacientes. Uma verdadeira “cidade de loucos”.

No início dos anos 80, a instituição iniciou uma transformação do seu modelo assistencial em consonância com a Reforma Psiquiátrica que vinha acontecendo em diversos países. Foram abolidos o eletrochoque e as lobotomias, além de terem sido proibidas novas internações de longa permanência. Desenvolveu-se um programa de desinstitucionalização para promover a transferência progressiva de pacientes para fora das instalações hospitalares.

Como reflexo das mudanças ocorridas no conceito de tratamento das doenças mentais e da desocupação gradativa do manicômio, uma virada se dá nas terras da Colônia que anteriormente preenchidas por casas dos funcionários e então ocupadas desordenadamente por 20 mil moradores de 6 comunidades que se formaram no local.

A região passa agora por um processo de revitalização urbana, com a criação de casas populares, creches, certificação de título de propriedade das terras para os moradores. Assim, a antiga Colônia se abre e se transforma no mais novo bairro da cidade, mantendo ainda a preocupação de preservar seu passado histórico e arquitetônico e sua área de preservação ambiental.

Arquitetura

O território da Colônia Juliano Moreira originou-se a partir de um dos mais antigos engenhos de cana de açúcar de Jacarepaguá, integrando inicialmente as terras do Engenho da Taquara. Foi então desmembrado em 1664 e denominado Fazenda Nossa Senhora dos Remédios.

Já em 1778 recebeu o nome de Engenho Novo da Taquara. Nos anos de 1660 iniciou-se a construção do engenho e da capela de Nossa Senhora dos Remédios. Ainda existem reminiscências da época e o núcleo original, que hoje faz parte do Núcleo Histórico Rodrigues Caldas.

A partir de 1920, foram construídas as edificações do Núcleo Psiquiátrico da Colônia Juliano Moreira (até então denominada Colônia de Psicopatas de Jacarepaguá).

Havendo, assim, a transição de uma arquitetura colonial, que no Brasil misturava traços arquitetônicos renascentistas, maneiristas, barrocos, rococós e neoclássicos, para uma arquitetura pavilhonar e hospitalar, portanto, fundamentada nas teorias higienistas que vigoravam no período.

Fotos acervo documental IMASJM

Já na década de 1930, com as reformulações da Colônia e a construção de novas unidades, o sítio da Colônia Juliano Moreira apresenta uma série de registros contemporâneos à época de funcionamento do engenho de açúcar, dos anos setecentistas, o que o torna um importante fragmento comprobatório da evolução urbana da cidade e da história deste ciclo econômico.

Centro Histórico

Atualmente, estão concentradas no Núcleo Histórico Rodrigues Caldas as construções mais antigas da Colônia Juliano Moreira, reminiscências da época do engenho: a sede, a Capela de Nossa Senhora dos Remédios, algumas ruínas de outras construções, além do conjunto de canaletas e o sistema de aqueduto, tombados pelos órgãos públicos de patrimônio.

O lugar é rota para os visitantes que queiram compreender a relação entre patrimôniopaisagem história que permeiam o território da Colônia e delineiam os traços que configuram seu espaço até os dias de hoje.

O Núcleo Histórico Rodrigues Caldas pode ser visitado e compõe o Circuito Cultural Colônia.

Artista Paulo Couri

A Cela

O Núcleo Ulisses Vianna, originalmente cercado por um extenso e alto muro, era formado por 11 pavilhões destinados a receber os pacientes homens, violentos e agitados da Colônia. Esses pavilhões eram compostos por enfermarias, cada uma com cerca de 40 camas justapostas uma ao lado da outra, onde os não tinham nenhuma privacidade. Em cada um dos 11 pavilhões, havia uma ala sem camas chamada de “bolo”.Nessas alas, os pacientes ficavam amontoados no chão e, ao seu redor, 10 celas-fortes – pequenos cubículos com portas de ferro – mantinham os mais agitados contidos ou isolados por punição. Pareciam verdadeiras solitárias no estilo prisional: recebiam alimentação pela fresta da porta e utilizavam um buraco no chão como sanitário.

Bispo era um dos “agitados”. Diagnosticado como esquizofrênico-paranóico, foi alojado no pavilhão 10 do núcleo. Forte e sisudo, o ex-boxeador tornou-se um “xerife”, posição que lhe assegurou privilégios e permitiu a recusa de eletrochoques e medicações. Nunca se interessou em participar dos ateliês de arteterapia, mas estava sempre produzindo objetos num processo criativo incessante e solitário.

Ele tomou posse das demais celas que compunham esse “panóptico” para vigiar e punir, como descreveu Focault, e as transforma em seu espaço expositivo. Para ter acesso ao local, era necessário desvendar o enigma apresentado por Bispo que consistia em responder qual era a cor de sua aura. Participar desse jogo proposto por pelo artista permitia experienciar a subversão que esse homem fez no hospício, de dentro de sua cela-atelier-galeria.

O pavilhão 10 foi o único que restou do conjunto arquitetônico do Núcleo Ulisses Vianna   que mantém a ambiência original. Na cela onde Bispo viveu  foram encontrados vestígios de desenhos do artista que o Museu está somando esforços para recuperar.

O mBrac em parceria com a Fundação Marcos Amaro irá iniciar a partir de 2020 as obras de recuperação do telhado e demais estruturas do Pavilhão 10 do Núcleo Ulisses Vianna para se tornar um espaço expositivo e de memória do passado asilar da Colônia Juliano Moreira e do contexto de criação das obras de Bispo do Rosário.

Pavilhão e o Núcleo Histórico Rodrigues Caldas podem ser visitados mediante agendamento, e compõe o Circuito Cultural Colônia.

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